Há dias, uma estudiosa perguntou-me se conhecia algum texto acerca dos critérios para escolher um chefe de enfermeiros, na era actual, com o fim de conseguir a máxima eficácia na organização e desenvolvimento profissional da Enfermagem; estava a fazer um estudo sobre a organização da Enfermagem e pretendia destacar o papel do chefe.
Mas para isso tinha como ponto de partida, conhecer como se chega a chefe, hoje, ou antes disso: o que é um chefe.
Reflecti um pouco sobre a possível ajuda que lhe podia dar, no plano útil e prático e esbarrei no que se pode considerar um chefe de enfermeiros, antes de discernir sobre a sua escolha, ou eleição.
Uma segunda dificuldade será a de saber se a chefia é um cargo ou uma categoria: se é cargo é porque alguém “en-carga” ou encarrega de qualquer coisa;
Se é categoria é uma competência própria, numa determinada linha hierárquica. É conquistada por mérito próprio, em provas públicas, num processo concursal. A legitimidade dos actos do chefe, com categoria própria, advém-lhe de dentro de si.
Por contraste, com este chefe, temos o de “cargo” que desagua no “encarregado”, no responsável, no coordenador ou outra pantominice qualquer.
Enquanto o chefe com categoria age por si, ou deve agir, para estar de acordo com a sua categoria; o chefe com “cargo”, age por outrem, por competência delegada, como por exemplo o encarregado de turno ou responsável de turno.
O chefe com categoria pode escolher os seus encarregados em quem delega alguma das suas competências, mas os encarregados não delegam no chefe de categoria própria.
Em função do que digo acima, já posso formular um esboço de critério, para ajudar a nossa estudiosa curiosa; o processo mais ideal para seleccionar um chefe de enfermeiros é o concurso de provas de porta aberta ou públicas. Só este deixa o chefe de mãos livres para atacar os problemas com sabedoria e isenção; sabedoria, porque provou tê-la; isenção, porque está de consciência livre e limpa.
O anti-critério do processo concursal é o da escolha, feita por alguém não enfermeiro, para o “profissional” ser coordenador de enfermeiros, não de acordo com o que devem ser as especificidades a desenvolver por eles, mas de acordo com os interesses de quem encarrega o encarregado de qualquer cargo de chefia indirecta.
São suspeitos de crime profissional, porque contra a própria profissão, todos os que se prestam a serem escolhidos por outros que não enfermeiros, para qualquer cargo, necessariamente fictício, porque se limitam a retransmitir a luz que lhes vem de outros, abafando a sua luz própria.
Sugerimos à nossa estudiosa a aberração dos Agrupamentos de Centros de Saúde, onde vai encontrar um seleccionado por outro, como vogal duma pseudodirecção clínica, onde faz o papel de bibelô. Infelizmente há quem se sinta feliz e contente nessa situação ou cargo, sem cuidar de investigar as origens deste presente envenenado.
Se são familiares de membros políticos de Câmaras Municipais, de preferência da linha socialista, ou de outra qualquer actividade das tipificadas nos “Jobs for the boys”, só têm metade da culpa, porque a outra cabe a quem empurrou para o cargo; se são supervisores desactivados, já é mais perigoso, pois deviam ter tido a capacidade de discernimento, para não caírem na ratoeira que Piscos e Zarolhos, armados em chicos-expertos, conseguiram engendrar.
Pior do que este tipo de escolha é das enfermeiras/os que andam arvoradas em ERA e não ERA a divulgarem, não papel autónomo dos seus colegas Enfermeiros, mas sim o que a metodologia de outros lhes impinge, para irem de porta em porta vender o gérmen da destruição da Enfermagem, enquanto tal.
Por falta de espelhos para especularem acerca da figura que andam a fazer, ou por falta de tempo para discernirem sobre o seu triste papel, que exercem com gozo tamanho, nunca vão saber por que foram escolhidas para tais cargos.
Fica como suplemento a recomendação à nossa estudiosa colega, de que deve tentar fazer algumas entrevistas aos vários tipos de escolhidos ou eleitos pelos “outros”. Espero que não lhe aconteça como a Antero de Quental ao entrar no “Palácio da Ventura”:
«Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!»
O verdadeiro chefe com categoria é o fulcro de toda a actividade organizada da Enfermagem.
Não é por acaso que os outros, os assaltantes da Enfermagem, começam por destruir o que ainda temos de estrutural, com a combinação e cumplicidade de alguns dos que já abdicaram de ser inteligentes.
Cordiais Saudações Sindicais,
O Presidente da Direcção – José Azevedo