fonte: RTP Notícias
comentários de: Enfº Fábio Gonçalves
Os enfermeiros que trabalham para a linha Saúde 24 contestam as condições de trabalho naquele serviço telefónico e queixam-se de processos de avaliação “inadequados”. Os profissionais concentraram-se este sábado em Lisboa numa acção de protesto que levou o director-geral de Saúde a prometer convocar os responsáveis da empresa para evitar a degradação do serviço.
Os enfermeiros ao serviço da linha Saúde 24 (808 242424) queixam-se, por exemplo, de disporem de escassos dez minutos para atender as chamadas telefónicas dos utentes, uma janela de tempo ditada pelos processos de avaliação. “Se nós dizemos a uma pessoa que tem de ir ao centro de saúde, ou ao hospital, mas que até ir ao médico tem de ter alguns cuidados, isso demora tempo. Quanto mais tempo estivermos a falar com as pessoas, mais prejudicados somos, por que isso prejudica o nosso vencimento”, argumentou à RTP o enfermeiro Lúcio Silva, um dos profissionais que marcaram presença na acção de protesto.
A mesma opinião foi manifestada pela enfermeira Susana Santos: “Quando atendemos a chamada já têm o utente identificado e nós não podemos confiar nisso. Temos de voltar a perguntar se realmente se trata daquela pessoa, se nasceu naquela data, se realmente mora naquela morada, se está a telefonar daquele distrito, se o número de telefone é aquele e nisto perde-se imenso tempo com uma pessoa que está aflita e que muitas vezes perde a paciência”.
Ambiente de trabalho em degradação O ambiente de trabalho tem vindo a degradar-se e os enfermeiros alegam que já foram despedidos oito profissionais por terem denunciado os maus métodos praticados no serviço. Uma acusação que a empresa gestora da linha já veio recusar. “Este mês houve dispensa de quatro enfermeiros comunicadores, mas ao mesmo tempo contratámos 23 novos enfermeiros e dois supervisores, que já se encontram ao serviço”, afirmava na sexta-feira o responsável pela empresa que gere a linha Saúde 24, em declarações citadas pela Agência Lusa. “As pessoas que foram dispensadas ao longo desta semana faltaram 25 dias nos últimos três meses, chegaram atrasados 17 dias e até houve um colaborador que passou 817 minutos com os auscultadores na cabeça mas não atendeu chamadas”, sustentou Ramiro Martins.
Empresa quer “ganhar dinheiro” O enfermeiro Lúcio Silva não hesita em acusar a empresa de ter despedido os profissionais porque estes “abriram a boca e não tiveram medo de falar”. “Não tenho medo de falar e dou a cara. Sou pela verdade. E a verdade é que esta empresa tem um único objectivo, que é ganhar dinheiro”, afirmou.
O director-geral de Saúde marcou presença na concentração e assegurou saber tudo o que está a acontecer na empresa através do enfermeiro que faz a ligação com o Ministério da Saúde. “É preciso ter em conta que estamos a lidar com uma empresa privada, no contexto de uma parceria, que foi aliás a primeira estabelecida com o Estado neste contexto novo”, assinalou Francisco George. O director-geral de Saúde vai chamar os responsáveis pela empresa ao Ministério já na próxima segunda-feira para evitar a degradação de um serviço que, em dois anos, atendeu 800 mil pessoas.
De acordo com o Jornal de Negócios, quatro dos profissionais demitidos seriam testemunhas abonatórias de uma das supervisoras suspensas após o envio de uma carta à ministra da Saúde com denúncias de “falhas graves” na linha. O responsável pela empresa garante que os despedimentos “não estão relacionados” com a carta. “Se quiserem ligar isto à carta, é uma tentativa deles de justificarem a dispensa”, reagiu Ramiro Martins
Opinião pessoal
A linha saúde 24 é uma linha de gestão privada e será sempre claro que uns dos objectivos passa pelo lucro. O estado é que tinha que pensar nisso antes de fazer a parceria. Como instituição privada, só estará a fazer (provavelmente o que qualquer empresa deve fazer - salvaguardar a sua sustentabilidade e crescimento económico). À luz da comunicação social, dá a ideia que só querem ter lucro, mas não acredito nisso pessoalmente. De certeza que existem boas e más práticas internas, mas isso deve ser resolvido internamente com a gestão, tendo em conta o quadro económico da empresa (que ninguém conhece). O que se vê agora é a chamada "arrumação da mobília velha", muito comum numa empresa privada: quem quer aceitar as regras tudo bem, quem não quer, tem o despedimento como solução. E por favor "não lavem a roupa suja desta maneira": por um lado os enfermeiros despedidos vêm alertar para a política economicista e a administração alerta para o absentismo e falta de profissionalismo de alguns enfermeiros. Entendam-se. Temos que nos concentrar no produto final/objectivo da linha que é o utente. Queremos coisas mais concretas, dados em que possamos confiar. Quantos utentes se queixaram da falta de qualidade da linha?